Paz Urgente
por: Padre Marcial Maçaneiro, scj
A Bíblia, os Vedas e o Alcorão pedem que a violência seja contida e ensinam que a paz deve ser buscada a todo custo. É uma bem-aventurança a ser vivida com empenho nos nossos dias
Em 1999, às vésperas do Novo Milênio, líderes de várias religiões se reuniram na cidade de Assis (Itália) para refletir e rezar pela paz. Os participantes queriam mostrar ao mundo que as religiões são escolas de paz, onde as pessoas aprendem a dialogar e procuram respeitar valores essenciais para a humanidade, como a bondade, a concórdia e a compaixão.
No terceiro dia de encontro, os líderes das religiões mundiais desceram de Assis e foram para Roma. O papa João Paulo II estava com o grupo, desde o início. Eu morava na Itália naquela ocasião e fui à praça de São Pedro. Quando entrei na praça, encontrei milhares de pessoas, de todas as raças, línguas e nações. Cada pessoa erguia uma vela acesa. Parecia Pentecostes! Um pentecostes de muitos credos. Uma assembleia de homens e mulheres pacíficos que, apesar de invocar a Deus com nomes diferentes, estavam unidos para promover o diálogo e a compreensão entre as pessoas, crenças e países. Pois a paz não aceita fronteiras, dado por Deus a toda humanidade.
Ali no meio da multidão, fui tomado de um sentimento profundo de solidariedade. Tudo era significativo. Cada gesto, cada rosto, era uma profecia de paz para o futuro do mundo. Mergulhei na oração e senti uma enorme responsabilidade pela paz, tão urgente em nossos dias.
A espiritualidade da paz
Paz é insistir no bem, mesmo sofrendo o mal. Paz é resistir à violência com estratégias de diálogo. Paz é respeitar a dignidade humana, superando guerras injustas e sem sentido. Paz é manter a identidade cristã com serenidade e singeleza, sem condenar os outros só porque eles rezam diferente de nós. Paz é colocar o bem comum acima de interesses privados. Paz é ser Igreja entre igrejas, participando do ecumenismo e trabalhando para “que todos sejam um” (Jo 17, 21).
Tudo isso está escrito no Evangelho. O Batismo nos consagrou para sermos “fazedores de paz” (Mt 5,9) e “servos da reconciliação” (2Cor 5,18). Se algum cristão só respeita quem pensa igual a si e, além disso, faz da religião um motivo para atacar os outros, ele errou de endereço: pôs sua fé no caminho errado. Seria mais honesto que mudasse de rumo, porque a Igreja é espaço de vida, diálogo e comunhão.
O Evangelho não permite que a Igreja se comporte como se fosse uma seita fanática e intolerante. O comportamento sectário e agressivo não condiz com a fé cristã. Basta lembrar as palavras do Pai-Nosso: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6, 12). O ensinamento de Jesus é claro e direto: quem deseja superar o mal, faça o bem; quem de seja ir além da discórdia, promova o perdão; quem acredita na paz, faça as pazes (Mt 5-6). Desse modo, seremos discípulos fiéis, porque aprendemos a viver do jeito de Jesus, que era “tolerante e humilde de coração” (Mt 11, 29). A paz, hoje e sempre, é uma bem-aventurança urgente
Referência: MAÇANEIRO, Marcial. Paz Urgente. In Ir ao Povo 77 (2003), São Paulo, p. 11.