Se ele tivesse chegado antes

Se ele tivesse chegado um pouco antes
por: Padre Francisco Sehnem, scj
Lucas, no Evangelho que escreveu não fala sobre isto. Mas podemos levantar a hipótese. Se aquele samaritano (Lc 10, 30) tivesse chegado uma hora antes, o assalto teria acontecido? Aquele viajante teria sido agredido, roubado, massacrado?
Aqui se abre um espaço enorme para a nossa capacidade profética e de previsão, de atenção aos sinais dos tempos, para tentar descobrir e prever os fatos, intuir para onde caminha a sociedade, para jogar com antecedência, preparar nossos irmãos para que possam estar em condições de enfrentar os problemas e defender-se contra aqueles que, do seu lado, preparam-se para assaltá-los, roubá-los e destrui-los.
Padre Dehon, fundador da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, lembrava que era preciso preparar os pobres para que pudessem eles mesmos tomar em suas mãos o seu destino e escrever a sua própria história. Somos convidados a ajudá-los a crescer, tomando-os protagonistas de seu próprio resgate; não, a transformá-los em termo final de nossa exuberante caridade ou destinatários inertes de nossas estruturas assistenciais.
É preciso atingir as causas dos males e dos sofrimentos, conhecer os mecanismos perversos que geram o sofrimento. O voluntariado emotivo já não é suficiente. É preciso chegar antes. Padre Dehon lembrava ainda que a nossa espiritualidade do Coração de Cristo precisa descer e atingir as causas dos males de nossa sociedade. Para isto, são necessários estudo e competência. Compreenderemos, então, as causas de tantas situações desumanas e descobriremos que não são fatalidades, mas têm um nome muito preciso.
Uma vez descobertas as causas dos tantos assaltos que ainda continuam acontecendo nas estradas de Jericó, somos convidados a desenvolver a nossa capacidade de estar presentes e lutar em duas frentes: combater as raízes dos males sociais e estar ao lado daqueles que estão saboreando os frutos amargos das injustiças.
A escolha dos últimos
Em tudo isso, o nosso alimento diário será a meditação dos grandes textos bíblicos que falam da libertação dos pobres, desde o Êxodo aos Profetas. Neles, descobriremos toda a paixão de Deus, que jamais perdeu a confiança nos pobres, mas que os amou com “vísceras de misericórdia” e, de rico que era, fez-se pobre, vindo morar entre nós, tornar-se um de nós, participar de nossa sorte.
A escolha dos últimos exige de nós uma grande coragem. A coragem de colaborar também com as instituições públicas, de precedê-las na estrada, intuindo respostas novas a necessidades novas. A coragem de usar a “violência”, isto é, a força da Palavra de Deus que, sem apelar para a mania do guerrilheiro, nos faz perder o medo dos poderosos da terra. A coragem de ser um espinho na consciência da sociedade, lembrando sempre os problemas e as necessidades que estão aí e que muitas vezes gostaríamos de não ver ou convencer-nos de que não existem.
Referência: SEHNEM, Francisco. Se ele tivesse chegado antes. In Ir ao Povo 77 (2003), São Paulo, p. 19.